O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de nascer nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico, levantou-se da cama, espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar, foi eructando estas mentiras torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir, travando relações com um novo Veiga:

—Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres... foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...

Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se, vomitou aos puxões o seu programa:

—Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar. De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais que estranhar...

E apontava-lhe a porta:{171}

—O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.

Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que erguiam êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um rancor covarde de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma vítima, alguêm para expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao avental os olhos. E começou nessa hora o seu martírio.

Nova fase do Veiga.

Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra, ouvindo as mayonnaises de ópera que um sexteto melodramático lhe servia, ia pagando bebidas aos amigos...

Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois, extorquindo-lhe os cobres{172} da bebida, empreenderam tambêm o apostolado.