—E o nosso amigo tem... a ideia?

O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os outros lhe gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o Veiga com fervor: o caixeiro agora era o burguês, e o seu ídolo loiro o preconceito!

Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o amor livre. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à cabeceira, como uma espécie de Flos sanctorum laico, um agiológio patético, ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os mártires de Chicago nimbados.

Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de comer. Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a mãe e p'ra dormir.{173}

Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada dia. Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o arengar coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao burguês», trapos de frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes, numa espécie de automatismo cerebral.

—Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor, digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...

—Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É grande esmola...

E lá ia a chorar muito baixinho.

Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil, a loucura do Veiga emparedou-o.

Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que os outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas, vagueava monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira as escórias que mais o impressionaram,{174} e o que era pior, sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o terror lambia todo.