A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.
Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e era em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada esquina.
Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que se instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma garrafa de Leyde subversiva.
Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia agora o outro dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que a Ordem poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.
Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu terror, rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante e tão grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.{175}
Às vezes esperava o sol, porque de dia não lhes tinha medo, e era na luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.
Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos ante o primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu deitar-lhe a luva, e regenerá-lo com parasitas no Aljube.
Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de genebra, e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco antes de o soltarem, um fado soluçado como nunca, por um gatuno que dormira ao lado dêle:
Já que eu te não dou o pão,
dá-te nua a quem to der;
mas guarda-me o coração,
a alma que ninguêm quer.
Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático Luz e Esperança. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra pai nobre.{176}