Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas, corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e muita vez contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos varredores... Fazia, é claro, teatro de combate, peças de intuitos sociais, dramas de tese, e como todos os colegas lá na troupe, considerava-se um actor-apóstolo. Recolhia cada vez mais tarde, trespassado de frio e de patético.

Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando viu um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O seu primeiro movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,—dormia àquela hora. Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu Deus! Estaria morta?... Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia perceber.

—Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!

Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela{177} primeira vez há muito tempo, teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a levantar-se. A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo outra vez meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. E ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos. Não se viam já há muitos dias...

A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:—era o seu filho! Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho—era o seu filho!...

Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz de misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:

—Ó meu filhinho!...

E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto. Lá estava a cama aberta, a dobra feita—como uma carícia dela a recebê-lo... Através das frinchas{178} das portadas, a manhã estava a sorrir no travesseiro...

Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino, fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a vida calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao lado p'ra tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas rolando quatro a quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:

—Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão