Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se nos olhos—como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor, de muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a dizer-lhe muito baixo:

—Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio que lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser outro...{179}

—Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam, meu filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais. E tu... e tu... estás tão magrinho!...

—Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou trabalhar...

Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A mãe, sem compreender, continuava:

—Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu ver—como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha medo, não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o reconheces. Louvado Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu—mas que cabeça a minha!—pus-me p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor Sousa esteve cá...

—Quem?{180}

—O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.

—Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.

A mãe, sem reparar, dizia sempre: