—Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela do mar... Perdoe o atrevimento...{199}
E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.
Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza, como nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.
Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de quintal, revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.
Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha imunda, perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes, extasiado.
De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns instantes, e na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito calmos, numa beatitude transcendente.
Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.
Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas{200} loucuras patéticas de Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse estranho pedinte de olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena luz polínica de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes voluptuado...{201}
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