—Não era preciso dizer, eu nem notei...
—Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V. Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!
Ainda uma reverência e lá partiu.
Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal que eu conheci?
Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador dramático e ex-poetrasto,{198} saiu o panteísta vagabundo, o louco duma misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre passarito moribundo?...
A pobre velha, morrendo, iniciou-o. Nasceu da sua dor segunda vez...
Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume, pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me, reteve-me com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:
—Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª a estimará...
Prometi.
Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que vestia sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um asterídeo ainda húmido, perfeito.