Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos. Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe entregava o passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos arroxeadas, e hirto, solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo muito os braços, como se levasse uma píxide sacrosanta.

—É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...{196}

E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo ensanguentado.

Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.

Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de veludo que comove.

Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante. Viu-me, flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.

Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria falar-me e esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com o cerimonial de mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir dinheiro. Mas não: era outra coisa.

—V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S. João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me hoje sair do Bazar dos tres vintens, não é verdade? Decerto{197} imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa... Não fui: quero contar-lhe...

—Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.

—V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre que eu conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito amigo dela. Até me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê... Era p'ra ela...