—Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não me faz monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não bate... então... não vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho relações, trato-lhe disso. Amanhã pela manhã...{194}
Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um ser vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num caminho ou uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.
É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio, vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa, nas crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de Unidade, o mesmo erguer de mãos para a Beleza.
Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos cedros, grisalhos de névoa e de geada.
Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco preto que a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada, davam-lhe os olhos rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um cómico angustioso de careta.{195}
Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.
Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre insultos e risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro—para que o não matassem.
—Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.
—Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.
Dei o vintém, mandei que lho entregassem.