Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia eléctrico, eu ia a pé p'rà Foz, na noite calma.
No cais, sentado em toros de pinheiro,—madeira para embarque, certamente—havia{192} um par em idílio, muito unido, onde fui descobrir com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.
Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar. Era o Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco emfática, em que eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de lágrimas molhando-a:
—Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica, descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar, digo-lho eu.
E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança:
—Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...
—Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à pancada?
A outra voz choramingava, aos haustos:
—Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado,{193} voltava ela sempre de o largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, mas já não podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da Afurada e anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por cima. Foi então que me atirei a ela como cega—que até lhe cuspi de raiva no cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora... agora...
Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia, e êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui comovido: