Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de ruídos, complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».
Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque fazia uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei a mão ao chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a tiritar de frio, soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência. Era ainda polidez, diplomacia:
—Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído, a trautear...
—Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...
E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta estúpida:{191}
—E que trauteava o senhor com êste frio?
Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:
—Isto... o silêncio... a névoa...
Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não imitava, como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda uma criança, o rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o esgarçar dolorosíssimo de uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia rasgando aos empuxões, nos beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida talvez de que foi mar ou o chôro das nuvens vagabundas...
E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra todos, êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...