E falou-me das árvores, do mar.
Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só segundo, caminhando com ela, caminhando;—e logo, logo ao despedir-se dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da madrugada... E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que era triste—como se fôsse já uma saudade...
Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas estonteadas...
—Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A minha hora chegou como a hora delas...{189}
E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:
—Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder tempo...
E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso sofre; sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà sentir sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas doutros, fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva, até que a noite por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de miséria, sensitiva, e amando-o sem nojo horas e horas...
A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida tôda, e oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas—pétalas murchas e folhagens sêcas...
Não pode durar muito: é impossível.
Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o Mar, as Árvores,{190} a Aurora, tôda a vida da terra—sua amante...