Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro. Recusou. Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia, tirou do bolso uma mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último argumento:
—Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...
Depois, com um gesto lento, precioso,{187} em que as taras do amador dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso muitas pétalas, e ofereceu-me algumas:
—Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...
Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:
—Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...
Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.
Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me disse, cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora esquelético, a cair: o seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda, convulsiva: é uma espécie de delírio ambulatório.
Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite nessa lufa em que agora o via sempre, êle, que era{188} mais meigo de que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma indizível voz de raiva e súplica:
—Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um filho, à terra tôda...