Riquinha

Soffrer callada as suas proprias dôres
E chorar como suas as dos mais,
Tal a Rainha do seu nome, em flôres
Transforma pedras e em sorrisos ais.
A toda a parte leva o sol e amores,
É a Saude dos Enfermos nos Cazaes;
E, no mar-alto, os velhos pescadores
Invocam-n'a entre espuma e temporaes!
Quem será ella, tão piedoza e dôce!
Com uns taes olhos que não tinha visto
Será a Virgem? Oxalá que fosse!
Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!
Fôra outrora, talvez, filha de Christo,
Se Christo houvesse tido alguma filha!

Ilha da Madeira, 1898.

18

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabellos;
Com a tua coragem fez castellos
Que poz, como defeza, á beira-mar.
Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!
Do ceu de Portugal fez a tua alma!
E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descança
O triste fim da minha mocidade!

Ilha da Madeira, junho, 1898.

19

Sestança

Ia em meio da minha Mocidade,
Perdido d'affeições, ao vento agreste,
Quando na Vida tu me appareceste,
Sestança, minha Irmã da Caridade!
Ninguem de mim dó teve, nem piedade,
Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:
Quantas velas á Virgem accendeste!
Quantas rezas nos templos da cidade!
Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!
Para assim merecer um tal cuidado
E tudo quanto ainda me fizeres?
Bemdito seja Deus que me escutou!
Bemdito seja o Pae que te ha procriado!
Bemdita seja a Mãe que te gerou!