Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.
Gosto do sol, oh certamente! mas segundo
O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz,
De dia, apenas tenho um ou outro rapaz
Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes.
Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)
Faço da noite dia. As grandes descobertas
Que eu descobri! Estou de janellas abertas
Quando os outros estão de janellas fechadas...
Ó fontes a correr como linguas de espadas,
Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa,
Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,
Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,
E só vos falta estar, como ellas de mãos postas!
Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado,
«Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...»
Noites e dias sem parar um só momento,
Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento.
Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei
Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!
Agoas, só de perdão, suspiros e piedades,
Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades!
Contae para eu scismar, uma bonita historia
Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria.
Contae que eu sou ainda uma criança, gosto
Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!
Ó rios a contar historias, como as criadas,
Historias de ladroes, mais historias de fadas,
A do Zé do Telhado e da triste viuva
Que só sahia á rua pelas noites de chuva!
E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!
Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:
São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,
Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas;
Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas
E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas
Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.
Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra
Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria
De levar as Naus do Gama á India da victoria.
E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas!
Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)
Sonetos de ais que só comprehende quem ama:
E de noivos a quem deu o lençol e a cama.
As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:
(Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes)
O mar! como elle conta ás noites tanta historia,
Contos de cavalleiros sublimes de victoria;
Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros,
E contos de segredo que ouviu aos marinheiros
Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca,
Quando choram seus males, que só a lua estanca.
O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo.
Quantas vezes a rir, vem conversar commigo
N'essas noites tão longas d'infinda solidão
Em que vela no mundo, tão só meu coração!
Quantas vezes na hora em que dormem crianças
E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças
Para embalar o peito de quem no mundo as tem;
Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,
(Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)
Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado,
Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado.
E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas
Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas
Que querem vir chorar commigo e conversar.
Historia é uma d'elle, esta que vou contar;
Ouvi-a em alta noite escura de janeiro
E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.
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Senhoras escutae-a! se tendes coração,
Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão:
Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça
Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça!
Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,
Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.
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Senhora minha, perdão
Anjo do meu coração
Pois a escrever eu me affoito?
Estamos no julho, a oito
Dia de Vasco da Gama
(D'oravante assim se chama)
Ai as saudades que eu tenho!
Pois olha escrevo-te e venho
Dar-te noticias do teu
Apaixonado. Sou eu.
Anrique, pastor de ovelhas.
Tenho-as brancas e vermelhas,
Pretas, de todo o tamanho.
Tivesse-te eu no rebanho
Porém como tu ainda
Não vi nenhuma mais linda.
Eu pensei que tu amavas
O teu pastor, mas brincavas.
Mas amo-te eu, muito embora.
Não sou amado, Senhora?
—Não o és, nem nunca o has-de ser—
Pois seja o que Deus quizer!
Vou pelas serras mais altas
Mas vejo que tu me faltas
E logo fico a pensar
Que bom e triste é amar!
Um amor sem esperança
É um bem que não se alcança.
Nasci debaixo d'um signo
Que em nada me é benigno;
Já não póde ser desfeito
O que está feito, está feito.
Ai de mim! não sou amado!
Ai de mim, triste e coitado!
Fumo saindo dos cazaes
Que aspirações vós levaes!
As minhas não vão tão alto:
............................
São bem simples e modestas:
Bons dias e boas sestas!
Com mui pouco me sustento:
O amor é meu alimento.
O meu pão de cada dia,
Lagrymas, minha agoa fria,
Quem me dera andar comtigo
No mar cheio de perigo!
Ir á Africa n'uma Nau
Na San Rafael de pau,
Como os nossos Portuguezes!
E andar por lá sete mezes,
Sete annos, ou mesmo mais
Sem medo dos temporaes!
Outros ha pior de passar...
Já tantos tive no mar
Já tantos tive na terra
Que já nenhum me faz guerra.
Nós dois sós, e porque não?
Sem maior tripulação.
Eu seria o commandante
D'aquella nau almirante!
Oh que formoza serias
Queimada das marezias!
Vestida de marinheiro
Ai sobe! sobe! gageiro
Aquelle topo real,
Diz adeus a Portugal,
Que lá nos vamos, Adeus!
E partiriamos com Deus!
Oh que viagem venturoza!
Pela Azia religioza
Mais pelas terras do sul
Com mar e ceu sempre azul!
Vêr no ceu planetas novos
Vêr pela terra outros povos,
Outras leis, novos costumes,
Capellas cheias de lumes,
Á California do Oiro
E lá achar um thesoiro.
Vêr (que isso nunca se perde)
O celebre «raio verde»
Do sol-pôr no mar da America!
Oh! a viagem chymerica!
De gatas, como as gatinhas,
...........................
Tu subirias aos mastros
(Tão altos que vão aos astros)
Sem receios das procellas!
E dobrarias as velas
A bujarrona, a latina.
Com tuas mãos de menina!
Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!
Quando estivesses de quarto
A mão no leme segura
A nau iria á ventura
Ó suspiro das aragens!
Ó phantasticas miragens!
Não tenhas mêdo. Morrer
Não custa nada, é viver.
Custa menos que se pensa.
O principal é ter crença.
Morre o corpo, a alma abre aza
E vae: é mudar de caza...
Mas nem sempre ha mares grossos
E que houvesse! Os padres nossos
Fazem muito em tua bocca.
Voz dôce acalma voz rouca!
Tu não temes temporal
És filha de Portugal!
Se morressemos, que importa!
Que bella serias morta!
Minha Senhora da Esp'rança
Já na Bemaventurança!
Ir comtigo pr'o outro mundo,
E juntos para o profundo
Para esses mares salgados,
N'um abraço amortalhados!
Meu pensamento fluctua
Perdoa (lá vem a Lua)
Esta carta tão comprida!
Mas eu amo nesta vida
Duas coisas, tu primeiro
Depois o mar, sou poveiro!
Mas hoje, Senhora minha,
Sou pastor sem pastorinha,
Ainda hontem era estudante
Porque não sou navegante!
Foi sempre a minha paixão;
Era a minha vocação.
Mas a minha Mãe não quiz
Talvez fosse mais feliz.
Ah, Senhora! vou deixar-te!
Minha Mãe por toda a parte
Anrique! Anrique, onde estás?
A pregação que ella faz
Tudo por amor de ti
(E já lhe oiço a voz d'aqui)
E as ovelhas? Ai, Senhor!
Não sirvo para pastor.
Cada uma p'ra seu lado
Não dou conta do recado.
Minha Mãe ralha que ralha
Ai, Senhor! Jezus me valha.
E adeus que me vou embora
Pois, boas noites, Senhora!
Ah! eu estou, aqui, tão bem...
E lá torna a minha Mãe
—Anrique, Anrique, onde estás?
—Onde te somes, rapaz!
Tem razão, é já tão tarde!
Na lareira o lume arde
E fuma, aceza a candeia:
Minha Mãe que faz a ceia!
Ha que tempo ella passou
Com a lenha que encontrou!
Desprezada nos caminhos...
Nós somos mui pobrezinhos!
E eu, aqui, á lua, á farta.
Prompto. Acabo, aqui, a carta.
Adeus! são horas de eu me ir
Cear, rezar... e dormir.
Nossa-Senhora me ajude!
A minha Mãe não se illude
Com toda esta demora
Ella bem sabe, Senhora!
E lá torna a Mãe: Anrique
Queres que eu me mortifique?
Anda cear, não tens fome?
Jezus! Jezus! Santo Nome!
Eu bem sei e bem no entendo.
O que são Mães! Em me vendo
Quando todo me concentro
Que trago paixão cá dentro.
Isto já ha muitos mezes.
Mas nada diz. Só ás vezes
Quando não como e me deito
Assim... a tossir do peito,
Tambem não quer ella comer
E aventura-se a dizer:
«Amores—filho, paixões
Só trazem consumições»
E assim é, assim, Mãesinha!
Pois adeus, Senhora minha!
..........................
Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa
Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.
É a hora em que Paris começa a louca vida
Na tragica cidade ao sol adormecida.
O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna
Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena
Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!
Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!
Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz,
Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz!
Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;
Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva
Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,
E assim de pranto e riso seu pão vae amassando;
Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores!
Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;
Paris que me acolheste n'agreste mocidade
Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade.
Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,
Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.
Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo
Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo
Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,
Que pela luz que tem não contam muitos annos.
E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo
Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.
.............................................
Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras
E quando no adro branco, as notas derradeiras
Perderam-se voando, julgou n'um som dorido
Reconhecer a voz do seu amor perdido!
São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios
Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!
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Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?
Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!
«Vi-te ha pouco rezando nas novenas
Ai tão linda, tão pallida, meu Deus!
Quaes são as tuas dores, as tuas penas,
Por quem levantas tuas mãos aos céus!
«Cantae, ó freiras Benedictinas,
Cantae, cantae,
Cantae novenas, cantae matinas,
Cantae, cantae.
«No Boul'Mich, os castanheiros da India
Começam a despir as folhagens, ao luar,
Que bellas armações, para galeras da India
Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!
«Tudo tão triste! todos tão tristes!
Olhae, são poucas todas cautelas
Doentes do peito, cuidado, ouvistes?
Tirae do armario vossas flanellas!
«Cantae o canto Gregoriano
Para eu chorar!...
Cantae ó freiras! durante um anno
Para eu... chorar!...
«Andam meus olhos luzitanos
A procurar-te,
Minha chymera! tenho vinte annos!
Eu quero amar-te!
«Ó sinos de toda a França
Cantae, cantae o meu mal,
Tão alto, essa voz não cança,
Que ella os oiça em Portugal!
«Cantae o canto Gregoriano
Para eu chorar!...
Cantae ó freiras durante um anno
Para eu... chorar!...»
...................................
Morrera já o Sol; os altos castanheiros
Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros,
Os choupos retorciam os troncos já despidos,
Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos,
Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho,
Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.
A cruz meio inclinada parecia desmaiar
Perdida na côr pallida da luz crepuscular;
Eram mysterios da hora nervoza da tardinha
Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!
A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos,
Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos;
A hora em que o traidor por mais que faça esforços
Não póde em si calar o susto dos remorsos;
A hora em que se acende o lume nas lareiras
E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras;
A hora em que entristece na rua o caminhante,
E pára vendo o Sol cahir agonisante;
E as raparigas trémulas se vão fechar as portas,
Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!
Ó Senhora d'altas Espheras!
Castellã das minhas chymeras!
Ó meu amor!
Amor mystico, amor celeste
Que tu pelo Natal me deste,
Senhor! Senhor!
Sou forte agora, e temerozo,
Sou um rei Todo Poderozo
Senão olhae!
Só diante de ti me humilho
Senhor! Senhor! Sou teu filho
E tu meu Pae!
Venham armadas de Inglaterra
Venham as naus de toda a terra,
De todo o mar!
Que eu só por entre ellas e o Oceano,
Na minha nau a todo o panno,
Hei-de passar!
Venha o exercito da Allemanha,
Mais seus alliados, mais a Hespanha,
Hei-de vencer!
Tu és grande, és forte, Guilherme!
Tu és um mundo, eu sou um verme...
Vamos a vêr!
Venha uma immensa tempestade,
Caiam raios sobre a cidade,
Venham trovões!
Que eu irei só para as janellas,
Sem Santa-Barbara, sem velas,
Sem orações!
Soldados de Alsacia e Lorena!
(A bella França assim m'o ordena)
Vamos! Então?
Atirae balas aos meus peitos,
Que eu apanho-as, como confeitos,
Na minha mão!
Venham Philosophos, Douctores,
Venha Spinoza, outros maiores,
Gregos, Judeus;
Venham Estoicos, Pessimistas,
Cynicos, os Positivistas...
Eu creio em Deus!
Ó morte, minha amiga de outr'ora
Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!
Queres-me? Ah sim?
Cortei as relações comtigo
Ó vae-te! já não sou teu amigo,
Nem tu de mim!
Ó Luiz de Camões e da Esperança!
Ao pé de ti sou uma criança,
Mas ouve cá.
Vamos cantar ao desafio,
Á sua janella, sobre o rio,
Ver qual mais dá...
Ó troveiros de toda a parte
D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!
O que sois vós?
Minha lyra é do seu cabello,
E os meus versos, quereis sabel-o?
São a sua voz!
Ó vento cantante do Norte!
Minha lyra agreste é mais forte
Do que a tua!
Vinde todos, troveiros do ar,
Em desafio commigo a cantar
Por essa rua!
....................................
Vem entrando a barra a galera «Maria»
Que vem de tão longe e tão linda que vem!
Toca em terra o sino p'ra missa do dia
Em frente, em Santa Maria de Belem!
Mareantes trigueiros no alto dos mastros,
Aí dobram as velas não são mais precizas!
Ai que lindas eram, ás luas e aos astros!
Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!
Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
Pois todos em breve a nau vão deixar;
Ó terra! Que saudade a de quem te deixa
Ó terra! pela aventura do alto mar!
Entra o piloto e abraçam-se estes e aquelles.
Abraçam-se e riem tanto á vontade...
Abraços que levam almas dentro d'elles,
Sorrizos de boccas que fallam verdade!
Só as intende (capitães, não as sentís)
Quem, algum dia, passou as agoas salgadas
Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz
Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.
E «Maria» vae indo pelo Tejo acima,
E scisma Anrique: «Que lindo Portugal!»
Vem as nymphas, vae uma dá-lhe uma rima,
Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.
E Anrique scisma: «Quem não te viu ainda!
Ó minha Lisboa de marmore! Lisboa
De ruinas e de glorias! Tu és linda
Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!»
Ó minha Lisboa! com oiros tão constantes
Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus
Jeronymos dos Poetas e Mareantes!
Lisboa branca de João de Deus!
I
Ó Lisboa! n'um seculo bem perto
Quando a Africa e as Azias se mostrarem
Civilizadas, sem um só deserto,
E as esquadras do mundo inteiro entrarem
N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto,
Para dos grandes ventos descansarem,
Ó Lisboa (não são glorias chymericas)
Voltada sobre as Azias e as Americas!
II
Porque é que Deus aqui te poz á entrada
Senão para destinos imperiaes?
Do mar da India a viração salgada
Respiral-a tu, antes dos mais.
A vêr és tu, primeira, a alvorada
E a ultima o sol nos fins occidentaes.
Lisboa! quando eras pequenina
Houve uma fada que te leu a sina?