Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
Que falta fazes á Lisboa amena!
Anda vêr Portugal! parece louco...
Que patria grande! como está pequena!
E tu dormindo sempre ahi no «choco».
Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!

X

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amores e alegrias.
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavalleiros, fazendo cortezias...
Que graça ingenua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!
Vêde a alegria que lhe vae nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!

XI

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!
Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!
Animaeszinhos cheios de delicias...
Vosso passado quão longiquo o vejo!
Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!
Lisboa das Varinas e Marquezas...
Que bonitas que são as Portuguezas!

XII

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amores não tenho nem carinhos!
Vida tão triste supportar não posso:
Vós que ides á novena, aos Inglezinhos.
Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.
Rezae por mim, vereis,—vossos peccados,
(Se acaso os tendes), vos serão perdoados...

XIII

Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
Que no Mundo soffreu todas as dores!
Odios, traições, torturas,—que sabe elle!
Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,
A espera que o enterrem entre as flores...
Ouvi: estão os sinos a tocar:
Senhoras de Lisboa! ide rezar.

ÁS SENHORAS DE LISBOA