Ó Lisboa das ruas mysteriozas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Becco da India, Rua das Fermosas,
Becco do Falla-Só (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas Rozas,
Becco do Imaginario, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Izabeis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

V

Meiga Lisboa, mystica cidade!
(Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
Que pena faz morrer na mocidade!
Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
Mandae meu corpo em grande velocidade,
Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!

VI

Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair d'um céo cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Mal o vejo apontar por essas ruas...
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
«Vae alta a lua!» de Soares de Passos.

VII

Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
Cintra das solidões! beijo da Terra!
Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra;
Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Cintra dos Moiros com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!

VIII

Romantica Lisboa de Garrett!
Ó Garrett adorado das mulheres,
Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
Á tua linda caza dos Prazeres.
Mas qual seria a melhor hora, ás sete,
Garrett, para tu me receberes?
O teu porteiro disse-me, a sorrir,
Que tu passas os dias a dormir...

IX