Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em Portugal, Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados conselhos; alli elle se votará a uma confissão sincera e plena, embora pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara d'uma indifferença gelida.
Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da sua phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim, suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o leitor, de per si, aprecie e encareça, com legitimos gabos, as composições que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem qualificar de maravilhosamente bellas.
Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA
I
Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos lyricos pregões...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos provaveis de Camões!
Ó Lisboa de marmore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa...
II
És tu a mesma de que falla a Historia?
Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?
Não sei quem és, perdi-te de memoria,
Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?
Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,
Ó Lisboa das Chronicas, responde!
E carregadas vinham almadias
Com noz, pimenta e mais especiarias...
III
Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidade de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De prôa para paizes extrangeiros!
Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!