Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado signal typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa faina foi de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia de pessoa distinctissima, a ex.ma snr.ª D. Constança da Gama, que tivera ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a explanação generica de sua phantasia e de seu intento.

O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral Á Lisboa das naus, cheia de gloria, a qual seria seguida de uma invocação, em offerecimento, Ás Senhoras de Lisboa, que é uma especie de introducção á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe. A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desillusões e possuido da triste convicção de que nada na vida o poderia abalar ainda ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar.

Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos, que não ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a confidencia ás Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique, escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria, como se ella fosse dote que se offerecesse. A feição symbolista do poema de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela representação da Lua, imagem do quanto é vã e irrealisavel a aspiração a um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo.

Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de Hespanha, finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris, exhausto e desvairado pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel. A Paris erroneamente se encaminhara já no fito de encontrar da sciencia transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e são pungentes as allusões e referencias que a todo o instante apparecem á historia propria do poeta, em sua ideação e em seu cruel soffrimento.

Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique não lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para lhe applicar salutifero balsamo.

Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e á mercê de mil fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de freiras, justamente na occasião em que ellas iam começar a entoar a sua novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes que alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara lá para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais que a muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga.

No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto de uma anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e de seus labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece lançar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e, após consolações inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o poeta toda a resignada amargura da sua alma.

Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino, affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique sauda com férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra tragica. Ao passado volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a compensação prophetica que se lhe desenha é-lhe figurada na vinda phantasiosa do Desejado, do chimerico D. Sebastião, do lendario «Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a fé, que foi a incarnação ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações messianicas do povo portuguez.

Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de que é chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva. Então, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas contemplativas.

Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e indiscreta curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se involuntariamente lamentos acres, pela traição d'aquella que elle amara. Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva agonia interior, onde mais doem na recordação as ingenuidades e os candidos embustes da quadra florente e illusionante.