XIII

Tem loiros os cabellos, e é criança,
Tem olhos verdes de luar nocturno:
Olhos verdes, são olhos de esperança!
Olhos verdes, são Luas de Saturno!
Veio da Africa mais a sua lança
Vae pr'o mundo, rezando taciturno.
Tão pobrezinho, olhae! estende a mão:
«Quem dá esmola a D. Sebastião?»

XIV

Esperae, esperae, ó Portuguezes!
Que elle ha-de vir, um dia! Esperae.
Para os mortos os seculos são mezes,
Ou menos que isso, nem um dia, um ai.
Tende paciencia! finarão revezes;
E até lá, Portuguezes! trabalhae.
Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,
Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!

Lá vem, lá vem minha Amada,
Rainha de Portugal.
Vem com a capa estrellada,
Debaixo d'um palio real
Todo de seda vermelha,
Com saias de oiro e coral.
Vê o povo que ajoelha
E faz o «pelo signal!»
Que linda é! que formoza!
Que graça ella tem a andar!
Pagens vestidos de roza
Vão á frente a encaminhar,
Tirando as pedras da rua
Não vá ella tropeçar,
Tão leve, parece a Lua,
Tão leve que vae no ar!
Vinde vêr, vinde ás janellas,
Meninas de Portugal!
Deixae o bordado, as telas,
Deixae a agulha e dedal.
Não temaes a feia inveja
Vinde vêl-a cada qual.
E que em honra d'ella seja
Esta noite o arraial.
Sua belleza é tamanha
Que pertence a Portugal.
Como obra de arte, extranha,
É um poema, é uma cathedral.
Aos Luziadas semelhante,
Aos Jeronymos egual,
Onde os poetas e o mareante
Dormem o somno final!
Nem Mafra com seu convento
Tem maior a altivez
.......................................
Não se esquece, visto uma vez!
Seu corpo é uma obra de graça
E de que suave pallidez!
A minha amada é a Alcobaça
Onde jaz a linda Ignez!
É fidalga de nascença,
Mais do que os Reis, do que vós.
Já poetas na Renascença
Cantaram seus bisavós.
Mas mais fidalga é ella ainda
Por sua alma (sem Avós).
Ah! lá vem ella tão linda
E vem rezando por nós!
A minha Amada é fidalga
Que tem no mar seus brazões.
Tem na bocca aromas de alga
Brizas da India e outras regiões,
O que prova d'onde vejo
Já no tempo de Camões
Era sobrinha do Tejo
E prima dos Galeões!
É toda de cazos bellos
A tua nobreza fina,
Toda torres e castellos
Com legendas de menina.
Excedes Reis e Prophetas
...........................................
Menos os Santos e Poetas
Que têm costella divina!

—Quatorze luas já foram passadas,
Desde que eu a perdi e ao seu amor;
Meu coração tem ainda as janellas fechadas,
Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.

O POVO

Chymeras tombadas! Chymeras tombadas!

—A sorte deu-me já cabellos pretos
Ai não precizo de os enluctar.
—«Mas olhe as brancas... meu senhor»
O branco é lucto, podes, Ama, descançar!

O COVEIRO