OS MENDIGOS

Tantos vadios sem nada na mão

Sempre á espera de D. Sebastião.

—Ó D. Sebastião a ti comparo,
El-Rey de Portugal, a minha sorte,
Se te encontrasse na vida, serias meu amparo,
Ser-m'o has talvez depois da morte.
D. Sebastião, rey dos desgraçados,
D. Sebastião, rey dos vencidos,
El-Rey dos que amam sem ser amados
El-Rey dos genios incomprehendidos.

Sahi, um dia, a barra á procura da gloria,
Entre soluços e orações, cuja memoria
Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno,
Que linda! O mar espreguiçava-se com somno...)
Por essa barra sahem, cheios de peccados,
Bandidos com seus crimes e mais os degredados,
Traidores á Patria e ao Rey, infelizes e ladrões.
Por lá sahiu, tambem, n'uma noite, Camões.
No barco em que segui viagem nessa agoa,
Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa
E mais um sacco de Dôr que por lá me ficou.
De volta trago tres, que aquelle não chegou.
Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo.
Não lhes quero mal, seu erro é tão profundo!
..................................................
..................................................
Todos partiram, todos fugiram.
Os ladrões assaltaram-me á estrada
Quizeram-me matar. Não conseguiram.
Ninguem me resta, não me resta nada!
Fui enganado nos meus leaes amores.
Já tive de salvar a minha vida á espada.
No meu jardim semiei lilazes,
Passado tempo vi nascer ortigas;
Cada dia que nova dôr me trazes?
Lavrei canduras e colhi intrigas,
Nasceram odios onde puz perdões.
Não digas mais meu coração! não digas
Procreei gigantes vi nascer anões,
Plantei nesta alma vinhas da piedade
E vindimei, Senhor! Ingratidões!
Nunca se deve ter tanta bondade,
Quando é excessiva e tanto dó inspira
E uma falta até de dignidade.
Ora eu assim cercado de mentira,
Longe de tudo e todos, e enganado
(Quando se foi tão criança o que admira!)
Vi-me sem Deus, só, triste e em tal estado
Que se o contasse chorarieis... Não!
Não falta em que empregar pranto salgado.
Que infortunio, meu Deus! que decepção!
Minha crença catholica perdi-a,
Já não sei persignar-me com a mão.
Durante mezes, sempre, dia a dia,
Ainda fui, por habito, á Igreja:
Não sabia rezar a Ave-Maria!
Chegava ainda até «bemdita sejas...»
E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim
Córava de pudor como as cerejas.
Nunca na Terra se viu nada assim!
Minha vida mudou-se de repente.
A tosse veio... vós sabeis o fim.
Foi a queda do Imperio do Occidente!
Foi o desastre de Alcacer-Kibir!
A Hespanha veio com Philippe á frente!
Que mais viria e estava para vir?
E fui a França consultar um Bruxo
Que eu já de ha muito desejava ouvir.
Á porta havia uma cruz de hera e buxo
E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa,
Erguia-se em girandola um repuxo.
Bolas de sabugueiro á mercê da agoa
Iam e vinham, graças de meninos,
Ascenções de prazer quedas de mágoa!
Era a sorte a brincar com os destinos...
Não deixava de ter engenho o dianho
Do Bruxo! Mas que symbolos tão finos!
Entrei. E vi um Velho alto, tamanho,
De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos.
—Sois vós o Bruxo?—«Sim! esse é o meu ganho!»
Tinha um sorrizo que só têm os velhos.
E os labios brancos (de quem já não ama)
Que contrastavam com os meus, vermelhos.
—Venho de longe, aqui, por vossa fama.
Vosso nome chegou ao meu paiz.
—O teu paiz, Senhor! como se chama?
Não: dá-me a mão, ella melhor m'o diz:
«Oh vens de Portugal? Oh se o conheço!
Manda-me para cá muito infeliz...»
Ouvindo taes palavras, estremeço.
N'elle fixo os meus olhos de admirado
E que me diga os fados eu lhe peço.
Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado,
N'uma cadeira antiga, ao pé do lume.
Eu assentei-me timido, ao seu lado.
Ó momento que um seculo resume!
O São Paulo do Amôr! Martyr christão,
Que ao vêr a espada já lhe sente o gume!
Na sua mão tomou a minha mão.
Seus olhos frios crava-mos na palma,
Mas de repente muda de expressão.
Que passado, Senhor! tem dó d'esta alma!
Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!...
Mas eu logo acudi, com grande calma:
—Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo.
Eu conhecia-o já antes de vós.
P'ra que lembrar-m'o? Sêde meu amigo!
N'uma sala contigua, etherea voz
Rezava a ladainha, eram mulheres.
—«Estrella da manhã!—ora por nôs!»
—«Nada te digo, pois que assim o queres!
Ouves? Lá dentro, rezam minhas filhas.
E rezarão o tempo que quizeres.»
E continuou a lêr: «Que maravilhas!
Que mão extranha! mão de tempestade!
Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!
Vaes em meio da tua mocidade.
Tens vindo em tua nau, desde criança,
Por um sombrio mar da antiguidade.
Agora, aqui, o temporal descança
E vê: segundo a altura do quadrante
Dobras o Cabo da Boa-Esperança!
Coragem! meu sombrio navegante!
Paciencia! mais um pouco e aportarás
Á India! mais tua esquadra de almirante!
Alli, te aguardam Bens te espera a Paz
A boa Gloria e mais do que isso, até,
Um grande amor,—e alli te coroarás!»
O Velho disse. E, logo, puz-me em pé.
Mui feliz, não querendo ouvir o resto,
Que eu sei o vasio que este mundo é.
Adeus! disse eu áquelle sabio honesto,
Formozo e de olhos grandes como céus!
Adeus! e parti logo, altivo e presto.
Caía o sol no oceano. Orei a Deus.
Uma nau me esperava... Erguemos ferro
E abalamo-nos de França. Adeus! Adeus!
Que peccado Senhor! ou grande erro
No mundo commetti que me dás tantos
Trabalhos, como na Africa em desterro?
Não posso ser bem sabes como os Santos.
Mas quantos homens neste mundo avisto
Tão felizes (e maus!) quantos e quantos!
E se não fui eu que pequei, ó Christo!
Peccariam os meus antepassados?
Quem foram elles? Vem contar-me isto!
Religiozos, maritimos, soldados?
E justas são as leis com que me aterras
Sendo elles os unicos culpados?
Na Arabia, na Phenicia ou outras terras
Cauzaram, vae em seculos, paixões
Fomes e sedes, ou atearam guerras?
Comeu a terra os ossos d'esses leões,
As suas cinzas foram-se nos ventos
E eu soffro, apoz quinhentas gerações?
Que injusta couza! que desleaes tormentos!
Que faz rezar, á noite, de mãos postas,
De que serve cumprir teus mandamentos?!
Quem sabe se não foram meus avós,
Senhor! Que tanto e tanto te offenderam,
Mas meus archi-primeiros bisavós?
Quando os vulcões da terra arrefeceram,
E lentamente, aos poucos, e as primeiras
Effloraçoes da vida appareceram;
Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras
E uivando, á lua, e destruisse as mattas
Que levaste a criar noites inteiras!
Talvez, no dia em que baixaste
Á terra, para ver a tua obra
Vestido d'alvas vestes como pratas,
Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra
Occulta entre jasmins que te mordeu...
Quando ias a colher algum... de sobra!
Outrora o sol ardia no alto céu,
Pediste sombra á arvore n'um monte
Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!
Quando o sol caía, á tarde, no horisonte,
Todo vermelho como agora, vêde!
Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,
E eu (que era agoa) não quiz matar-te a sede!
Quem sabe se uma vez, pela noitinha,
Foste ensaiar o mar, deitando a rede,
E cobiçou o peixe que lá vinha
E t'a furtou, (brinquedos de criança!)
Alguma onda do mar, minha avósinha?
Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rança!
Como devo soffrer perseguições?
(Eu concordo) é legitima vingança?
Ah não! eu não descendo de leões
Nem da vil cobra que se vae de rastros,
Que só concebe e dá á luz traições!
Nem dos pinheiros altos como mastros
Nem das agoas que vão regando os milhos:
Nós os poetas descendemos de astros,
Nós os poetas, Senhor! somos teus filhos!
... Assim scismava eu pelo mar alto
Sob o luar partindo-se em vidrilhos...
Quando n'uma manhã de azul cobalto,
Ao acordar, me vi no claro Tejo
Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.
Mezes passaram, longos! que nem vejo
Que differença em seculos, ou mezes:
O tempo marca-o a ancia do Desejo!
Que fazia eu? Nada. Scismava, ás vezes,
Errante, ao «Deus-dará» da vida:
Sempre assim fomos nós, os Portuguezes!
Ora em dia de Santa Apparecida
(Mais uns minutos, esperae, Senhores,
Que eu acabo esta historia tão comprida),
Errava n'um montado entre pastores
Quando, subito, vi uma Donzella
Tão linda! n'um Solar, colhendo flôres.
Oh doçura de carne ou de estrella!
Que esvelteza e que graça de alfenim!
Meu coração disse-me baixo: «É ella!»
Qual de vós, Homens! Já não teve assim
Uma vizão, vendo erguer-se entre
Nuvens, a vossa torre de marfim?
Deixae que a minha alma se concentre.
Deixae! que esse dia é maior que quando
Minha Maesinha me pariu do ventre.
Quedei-me, ao vêl-a, em extasis olhando.
Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei;
Meus labios moviam-se... rezando!
Quem será ella? a filha d'algum Rey?
Atraz seguiam-na duas aias velhas:
Quem será ella, quem será? Não sei.
Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas
Voavam, ao sol, emquanto ella lia
Um livro de horas com folhas vermelhas.
Que paz! nem uma arvore bulia!
E callavam-se as fontes! Que doçura!
Mas de repente uma voz chamou: «Maria!»
Maria se chamava! Oh que ventura!
Partiu. Eu quiz seguil-a, mas não pude!
Que torpor esse que ainda hoje dura!
A virgem me proteja e Deus me ajude!
Vae alta a noite, eu caio de fadiga,
Bambas as cordas do meu velho alaúde!
Ó Genio, não te partas sem que eu diga
O encanto, mais a graça encantadora
D'aquella virgem Castellã antiga.
Minha fronte vergou-se, scismadora:
—Quem será ella, mystica vizão!
Parece com seu Ar Nossa Senhora!
Mas eu já tive tanta decepção
(Lêde, lêde, o principio d'esta historia)
Que contive essa subita paixão.
Tudo na Vida engana, até a Gloria.
Para deixar de o crêr fôra preciso
Lavar no Lethes minha fiel memoria.
Assim pensava eu, meio indecizo,
Quando na estrada junto a mim passava
Um velhinho a rezar ao Paraizo.
N'um cajado de lodo se apoiava.
E detinha-se, ás vezes, um momento,
Erguia ao céu o olhar, e suspirava.
As barbas brancas, fluctuando ao vento;
Devia ter um seculo de idade
E talvez vinte ou mais de soffrimento!
Parou ao vêr-me e olhou-me com bondade:
Depois na sua voz meiga de briza:
—Uma esmola, Senhor, por caridade!
Uma lembrança dentro em mim se enraiza.
—Dou-te, bom velho! tudo que quizeres,
Se em troca me dás vestes e camiza.
O velhinho sorriu como as mulheres.
A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha,
Que na botoeira tinha malmequeres...
Ninguem a essa hora pela estrada vinha.
Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito.
E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.
Mas não estava ainda satisfeito,
As suas barbas brancas eu queria,
Comprar-lh'as era falta de respeito!
Comprar-lh'as nunca eu me atreveria!
Mas o bom velho o pensamento ouviu,
Que aquelle olhar excepcional ouvia.
Ó grandes barbas! que ainda ninguem viu!
Ó grandes barbas! como eram bellas!
Tal como outrora as de D. João, em Diu!
—Não lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as?
Ó povo portuguez! quanto és sympathico!
Ó povo portuguez das caravellas!
Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico.
Beijei-lhe as mãos curvado... E o bom velhinho
Lá se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...
O sol cahia ao longe no caminho!
Não tarda a noite, já lhe sinto os passos,
Mas ha tempo: ella anda devagarinho.
Enfarpellei sem grandes embaraços;
A toillete tem poucos elementos,
Muitos remendos sim, rotos os braços...
Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos;
«Que nome tens, amigo?» lhe gritei.
«Manoel». E digo eu, «dos Soffrimentos».
Cahia a noite: com pressa caminhava.
Segui os passos deixados por Maria
Que flôres na mão, andando, desfolhava.
Não era aviso que assim daria?
O meu olhar teria percebido?
Que luz d'esperança a minha alma via!
Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido
Irão achar o pobre esfarrapado!
Um mendigo velho... e tão mal vestido!
Pedi esmola e parei sobresaltado.
Emquanto alguns me enchiam a saccola
Um olhar lindo em mim era fixado.
E que olhar p'ra mim! tanta doçura evola!
Senhores, eu não me tinha enganado...
(Assim julguei então... a Vida foi-me escola!...)
Ella passou, de manso, para o meu lado
E murmurou o meu nome, assim, baixinho...
Disse-me depois que o houvera sonhado!
..........................................................
..........................................................

THEREZA

—«E depois, menino, sabemos já o resto...
Para que mortifica assim o coração?»
—Ai minha Thereza! tu tens talvez razão:
Esse amor primeiro foi-me tão funesto!
O os meus dias idos em contemplação!
O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe!
Fallava eu ás flôres, como se ella fosse:
«Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.
Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal!
Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos!
Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos,
Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.

—Quem é, Thereza, que bate á porta
Quem vem a esta hora quebrar meu somno?
—Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta,
São folhas a cahir, que é já outomno...

«Quando eu era moça e menina,

A-i-ó-ái!