Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.

Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.

Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referencia ao titulo do volume, Despedidas. Este titulo foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.

Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de Despedidas, significando este a sua retirada da vida litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente O Desejado, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo in mente, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos.

D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.

Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.

José Pereira de Sampaio (Bruno).

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