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Logica

Ai d'aquelles que, um dia, depozeram
Firmes crenças n'um bem que lhes voou!
Ai dos que n'este mundo ainda esperam!
Terão a sorte de quem já esperou...
Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram
Oiro e papeis que o vento lhes levou!
Ai dos que tem, que ainda não perderam,
Que amanhã, serão pobres como eu sou.
Ai dos que, hoje, amam e não são amados,
Que, algum dia, o serão, mas sem poder!
Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados
Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!
Ai dos que morrem, que lá vão levados!
Ai de nós que ainda temos de viver!

Pampilhoza, 1895.

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Ao Cahir das Folhas

A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA

Podessem suas mãos cobrir meu rosto,
Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,
Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
Eu me fôr viajar para o Sol-posto.
De modo que me faça bom encosto,
O travesseiro comporá com geito.
E eu tão feliz! por não estar affeito,
Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.
Até com gosto, sim! Que faz quem vive
Orpham de mimos, viuvo de esperanças,
Solteiro de venturas, que não tive?
Assim, irei dormir com as crianças
Quazi como ellas, quazi sem peccados...
E acabarão emfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.

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