Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS
Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra
Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes
Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)
Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...
Oh o encanto da viagem seductora!
Que bem me disse então dos Portuguezes!
Que faria hoje! foram-se os revezes!
O que lá vae pela Africa, Senhora!
Depois, ao separarmo-nos no Tejo,
Disse-me (com que voz e com que modos!)
«Deus o faça feliz, ao seu desejo!»
Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo...
Porque afinal os homens quazi todos
Têm sido e são muito mais maus do que eu...
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Nossos amores foram desgraçados,
Desgraçada paixão! tristes amores!
Se Deus me dá assim tamanhas dores,
É porque grandes são os meus peccados.
Quando virão os dias desejados?
Quando virá Maio para eu vêr flores?
Nunca mais! ainda bem, santos horrores!
Que os pobres dias meus estão contados.
Passo os dias mettido no meu moinho,
E móe que móe saudades e tristezas,
Moleiro que no mundo está sósinho.
Os lavradores destas redondezas
Queixam-se até de que a farinha á data
Tanta é que «está de rastos de barata...»
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Placidamente, bate-me no peito
Meu coração que tanto tem batido!
E para mim, inda este mundo é estreito
P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.
Meus dias vão passando como as agoas
Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,
E se de noite eu oiço aquellas mágoas
Já não descanço mais, em sobresalto.
Placidamente, bate-me no peito
Meu coração em luctas tão desfeito,
Que com a Vida, a Dôr hei confundido.
E se se ganha a Paz com o soffrimento,
Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...
Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!