Apparição

Á VIRGEM SANTISSIMA

Pelas espadas que tu tens no peito,
Pelos teus olhos rôxos de chorar,
Pelo manto que trazes de astros feito,
Por esse modo tão lindo de andar;
Por essa graça e esse suave geito,
Pelo sorriso (que é de sol e luar)
Por te ouvir assim sobre o meu leito,
Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»
Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,
Quando chegando vens, assim tão calma,
Pela cinta que trazes, côr dos ceus:
Adivinhei teu nome, Apparição!
Pois consultando manso o coração
Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»

Lausanna, junho, 1896.

7

Todas as tardes, vou Léman acima
(E leve o tempo passa nessas tardes)
A pensar em Coimbra. Que saudades!
Diogo Bernardes deste meigo Lima.
Na solidão, pensar em ti, anima,
Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades!
Os rapazes tão bons nessas idades
(Antes que a Vida ponha a mão em cima...)
Alegres cantam nos teus arrabaldes.
Por mais que tire vêm cheios os baldes,
Mar de recordações, poço sem fundo!
Freirinhas de Tentugal, passos lentos!
E o chá com bolos, dentro dos conventos!
Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!

Lausanna, junho, 1896.

8

A MEU IRMÃO AUGUSTO

Léman azul, que, mudo e morto, jazes.
Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!
Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo,
De turvar tuas agoas são capazes.
Minhas cartas inuteis de doutor
Eu rasgaria, é certo, com prazer,
Se eu podesse um dia vir a ser
Dessas ondas, um simples pescador.
Léman azul, nas agoas socegadas,
Quantas vidas tu levas confiadas!
Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!
Só do meu coração, ao alto-mar,
Ninguem se quiz ainda sujeitar.
Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!