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A JUSTINO DE MONTALVÃO
Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento
De Franciscanos. Fui-me lá ha dias.
Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias.
Iam ceiar. Fóra mugia o vento.
Um pallido Christo, ao fundo da sala,
Espalha em redor seu alvo clarão;
E, quando se reflecte a Cruz pelo chão,
Os frades ingenuos não ousam pisal-a.
«Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta.
Vontade, Senhor, tive eu de chorar!
Tão só me sentia, pela noite morta...
E quando na volta, á luz das estrellas,
Meu doido passado me vim a evocar,
Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.
10
Senhora! a todas as novenas ides,
E porque vós lá ides, vou tambem.
É um descanço sem par ás minhas lides,
Aos meus males, e em summa faz-me bem.
Essas graças que tendes (vós sorrides?)
Só nas flôres as vejo, em mais ninguem.
Se o vosso corpo é magro como as vides,
Os cachos d'uvas que o cabello tem!
Fazeis-me andar n'uma continua roda,
Pelas igrejas da cidade toda,
S. Luiz de França, Encarnação e mais.
Senhora! assim commigo em beato dais,
Faço-me frade e vou para um convento...
E adeus! que lá se vae o cazamento!
11
Ha já duzentos soes, ha quatro luas,
Que te pedi que a Igreja abandonasses.
Tu és cruel, Senhora! continúas,
Como se agora apenas começasses.
Á sexta-feira e ao sabbado jejuas,
E tanto te pedi que não jejuasses.
E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas
Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»
Nenhuns peccados tens. És anjo e santa.
Boa como o ceu, simples como a planta,
Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!
Quaes são os teus peccados? peccadores
Senhora! são os vossos confessores.
Homens e basta: são máos como as cobras!