Leça, 1885.
*Enterro de Ophelia*
Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
(Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…
Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla,
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!
Leça, 1888.
*Ballada do Caixão*
O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte…
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!…)
—Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva?—Vamos ver…
Olhou, mexeu na caza toda…
—Eis aqui um e bem barato.
—Está na moda?—Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda…)
—Quando posso mandar buscal-o?
—Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o…)