(E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

Pariz, 1890-1891.

*A Sombra*

Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
Que já a lua, a sentinella, rende
Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
Com o cabello separado ao meio,
Todo caido para traz, como o de Christo!

Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
Quantas lembranças d'este peito arranco!
Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
Terá ainda a mesma voz tranquilla?
Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
«Anda commigo…»

Coimbra, 1888.