Vendeste a tua boca, aquela que beijára
Purinha e a sorrir, meus versos a chorar.
Vendeste as tuas mãos, febris que eu apertára,
E outr'ora já por mim se ergueram a rezar.

Vendeste o teu olhar, e o corpo airoso e lindo,
Enlevo do meu sonho, a luz do meu viver.
Vendeste o teu sorrir, sorriso doce, infindo…
Que fôra para mim alivio de sofrer!

E nem sequer tens pena! És d'el' que te comprou!
Vender's a tua boca, aquela que beijou
Meus versos a chorar por ti n'uma paixão!

És minha? És d'ele? És minha á luz do sentimento!
Tu vives d'este amor. É meu teu pensamento.
És minha! Não vendeste ainda o coração.

1917

+Um peccado+

Silhuete do Amor, corpinho d'anfora, esguia!
Olhar sonhando a rir, promessas e desejos.
Braza a queimar, a arder, acesa á luz do dia…
Boca tão linda… e boca virgem dos meus beijos!

És a esfinge da Graça! O sonho do Noivado!
Uma oração trazida á Terra, pela Virgem!
E és tambem ainda um mixto do Pecado…
A figura do Amor na tela da Vertigem!

Tu sabes quem eu sou; e crê, quando te vejo,
Eu tenho a impressão do que seria um beijo,
Em frente do Senhor, á luz do coração!

Mas tu, sorris, e ris… e eu quêdo-me a scismar,
Como seria bela a vida a recordar,
Um longo beijo teu—Peccado, e Oração!