Assim, houve luar e noite escura,
N'aquela doce noite de amargura,
Misterio indefinido que profundo!

Assim, é a tu'alma p'ra minh'alma,
—Ó minha maré-viva e maré-calma,
Do grande mar, da Dôr em que me afundo!

1920

+A mascara loira+

Ó minha viciosa, esterica e perversa,
De linhas sensuaes; teu corpo éthérisado,
Tem frases de requinte, em lubrica conversa!
Tem lume de cigarro, loiro e opiado!

Teus olhos a boiar, são taças d'absynto.
E a tua silhuete loira e desgrenhada,
Tem risos de cristaes partidos, que eu bem sinto,
Em noites de volupia, á luz da madrugada!

Á noite, as tuas mãos, são gumes de punhal,
Depois de terem morto—alguem sem fazer mal…
Tua voz é o Fado… eu ouço-o quando passa!

No Mundo és o Drama, a Farça, és a Comedia!
Ás vezes tambem és—palhaço—na Tragedia!
És a figura loira e linda da Desgraça!

1921

+Abandono+