Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos, encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade. Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores, curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra! Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso mesmo,—crêl-o-eis?—é que está, segundo elles, a sua superioridade sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe ao grito da criancinha[4].

A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação, e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos, e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim, sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»

Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o rastilho d'um rato atraz do armario, um Ave esquecido, ó cathastrophe! ó remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal; qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de areia, e mede os atomos.

Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros. Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.

Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é n'isto que a perfeição consiste.

E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno, a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural, necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que a razão está com ella.

Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de seculo, que vol-o prohibem os theologos.

Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento não vos quadra; porque não foi feito para muitos.

Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão ellas esconder-se longe do inimigo.

No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá póde entrar.