Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos. Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem este o seu logar proprio.

Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.

E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que, no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar, devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.

Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre, n'um viver sempre fluctuante.

No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.

Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz, sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo, soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que poeiras, e que sombras!

Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita.

É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos, famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que, desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario, credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia; filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber, um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros, para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da freira.

Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações, tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus. Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito; e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde; está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia, cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé. Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais temivel a responsabilidade.

Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos? Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem chorava?