N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando, com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus, mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos, a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem, os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os uns dos outros.
Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém, não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti existe—o que eu não sei, mas muito desejo—não procede de ti. Não te julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas, nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos. Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem! ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.
Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que não é teu.
São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir, sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem, ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do peccado, mas nada de nos amarmos.
IV
Discurso de um mundano, após bastos estudos ácerca da perfeição theologica
Em continuo pavor do inferno viveram os santos: orações, jejuns, cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao pé da cruz, bençãos de pobres soccorridos por elles, perpetua immolação, indigencia de cella, ninhos de palha, alimento a pão e agua, nem com tudo isto socegavam. Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores, pontifices—Mauricio á frente da sua legião; Gregorio, o Grande, sob a tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens; Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroçadas de pavor passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mãos impollutas, nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina. Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que não mereciam a misericordia que tão precisa lhes era.
Ah! se a alma só assim se salva, perdidos estamos todos, ó meus amigos!
Bem ouço o theologo que nos diz: Não é assim; a salvação ganha-se com menores trabalhos. Deus não exige que todos os seus filhos sejam egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Estás perdido como nós, tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos todos. Os exemplos que nos cumpre seguir são os dos santos, não são os vossos. Mostrae-nos na Legenda um só santo que subisse ao céo pelo caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo, temendo, como eu, a miseria, a dôr, as humilhações, condescendente comsigo proprio, almejando viver no coração de outra creatura, chorando sobre as illusões esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. Não encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam, bispos que fallavam verdade aos reis da terra, á custa da vida até; ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo super-natural, tendo apenas de humanas os incançaveis escrupulos, os inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso, virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.
Vós, porém, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vós, que viveis regalados em quanto o Christo mendiga á vossa porta; vós que tendes riquezas ao sol e riquezas á sombra, quando na vossa parochia tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vós, que cubiçaes a estola, a murça ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem, além de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christãos cujas imagens campêam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e desespera-vos a perfeição d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes são mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que não vem do alto, que se enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.