Ai! que perdidos estamos, ó meus amigos! Que lucramos em fechar os olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado pelos labios, se no intimo do coração tendes a propria estima sempre desvelada? Que aproveitam as momentaneas conversões, seguidas de quedas mais desastrosas? Que vos fazem certas privações associadas a tanto regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!
Ora pois, se assim é, se o abysmo está aberto e o cahir é irremediavel, cerremos os olhos e não cogitemos mais em tal. Entre o céo inacessivel e o inferno d'onde não ha mais sahir, resta-nos um momento só: gozemol-o, ó meus amigos. Que é isto de estar a gente a empeçonhar, com terrores vãos, prazeres, tão raros quão fugitivos? Não pensemos no que será; pensar n'isso e desesperar é a mesma coisa: desesperar de entrar no céo, e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.
Quem é ahi o sandeu que falla em inferno? Não ha inferno, minha mãe! Conclue em paz os teus dias extremos. Não contristes com visões pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleçam antes de nós. Ride, ó meus filhinhos: a vida vos será breve e repleta de miserias, quando crescerdes.
Eu desejo, senhora, que a minha casa seja mansão de jubilos e não de tedios: quero ser amado pelo que sou e não por caridade; quero ser obedecido amorosamente e não com submissão de escrava; aliás, buscarei quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! Não ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi á mão. Enche-me o copo, e dorme placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, até á morte; que da morte para além começa o odio!
Ah! que bizarra invenção não foi esta do inferno! Um abysmo para onde naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha, cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa perspectiva para que façamos da terra uma estancia de delicias peccaminosas!
V
O rebanho
Se não fosse preciso crêr na eternidade do inferno, e no pequeno numero dos escolhidos, e na inevitavel condemnação da maior parte dos homens, eu odiaria como vós os prazeres da vida; o sermão de Jesus na montanha se me figuraria mais bello e intelligivel; eu entenderia a felicidade das lagrimas, as delicias da pobreza e a doçura de todos os sacrificios.
Quando, porém, se me diz que não é bastante haver chorado e soffrido muito n'este mundo para ganhar o perdão divino; quando se me diz que nada vale affrontar a ira dos tyrannos, defendendo, a verdade que os fere, ou o direito que elles avexam; quando me dizem que nada monta morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela sua independencia; quando me dizem não importa nada envelhecer na miseria por haver preferido a honra ás honras, o estudo á opulencia, o trabalho aos prazeres; quando me dizem que tudo isto é fumo, que estas dores, esta coragem, privações, heroica vida, heroica morte, não podem resgatar minha alma d'um peccado mortal, e aos olhos de Deus não valem o cilicio d'um frade, ou a confissão de um salteador agonisante; ah! confesso que, ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos christãos, não entendo o sermão da montanha, e pelo contrario começo a comprehender os prazeres d'esta vida.
Vêdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vão arrostar as ondas do oceano, e vogar, por dias, semanas e mezes, longe da praia, á mercê das tempestades para ganharem, á custa de mil perigos, o pão de seus filhos?