I
O grupo dos philosophos
Os philosophos crêem em Deus, crêem na liberdade e immortalidade da alma, na justiça, em todas as noções moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades. Em revelações sobrehumanas é que não acreditam.
Ora, ameaças de inferno converterão tal gente? De quantos mysterios regeitam, o inferno é o mais incrivel; e tanto que irrita a propria fé, que, só abdicando o uso da razão, se submette. Dos philosophos não ha que esperar similhante sacrificio.
Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vós.
II
O grupo dos corruptos
Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno.
Vá lá!—dizem elles—venha o inferno que não nos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós. Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e melhor ainda—viva a patuscada!—com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.
Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida.