III
O grupo dos indifferentes, etc.
Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem; ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor do rancho será condemnado.
Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor—amor no peccado, meu Deus!—é de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.
Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados com creaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento.
Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é movel nem empêço: é uma coisa esquecida.
IV
O grupo dos devotos
Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de per si sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a condemnação?
Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo, olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por uma mêa culpâ. Desgraçadamente é certo que a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christãos em uma serra por noite de luar.