Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.

Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e até Roma, com os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados, mercadejando no balcão, padres misturados com meretrizes nas salas dos festins, hurrando nas suas poltronas d'onde não podiam arrancar-se, e levando aos beiços, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas; validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mãos postas, e principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois, tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo, dispersavam-se em bandos pelos horisontes fóra em cata de terras mais ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de condemnados.

Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas gementes, poços sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em mar sem praia. Em fim lá viram quanto os pagãos tinham visto, o reflexo lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrando n'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas proprias mãos forjaram.

Ha com effeito lá n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos, para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas de morcego, pontas, coiraças escamosas, griphos e agudissimos dentes. Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo isto durante a eternidade n'uma especie de açougue e cosinha da carne humana. Ha outros transformados em leões, e viboras enormes, arrastando as prêas em solitarias cavernas.

Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos padecentes, em quanto outros se transformam em dragões volateis, e vão carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos espaços, e as precipitam no lago de enxofre. Além se vê nuvens de gafanhotos, e de agigantados escorpiões, cuja vista arripia, cujo cheiro enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acolá estão os monstros polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque são immortaes.

Estes demonios de fórma sensivel, recordando tão ao vivo os deoses do Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios não funccionam á toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter n'este mundo. São os condemnados punidos em todos os sentidos e orgãos porque offenderam Deus por todos os orgãos e sentidos. Os comilões são punidos de certa maneira pelos demonios da intemperança, e d'outra maneira os calaceiros pelos demonios da preguiça, e ainda d'outra maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, são tantas as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles até na fogueira terão frio, e no gelo se sentirão arder; estarão ávidos de descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os martyres, e assim para todo o sempre.

Nenhum demonio se desgosta nem desgostará jámais do seu terrivel officio; n'esta parte são elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na execução das ordens vingativas que receberam. Se não fosse isso, que seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os outros se desavêm; e posto que sejam máos e muitissimos, os demonios harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca na terra se viram nações mais submissas a seus principes, exercitos mais doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientes a seus prelados. Nada se sabe da ralé dos demonios, d'essa canalha de espiritos villãos que formam legiões de vampiros, de sapos, de escorpiões, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem nome que constituem a zoologia das regiões infernaes; mas são conhecidos de nome muitos principes que commandam aquellas legiões, entre outros Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe das moscas geradoras da podridão, e Mammou, o demonio da avareza, e Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o chefe universal, o sombrio archanjo que no céo se chamava Lucifer, e no inferno se chama Satan.

Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas.

II

Reflexões sobre as penas materiaes dos condemnados