De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razão se reduzissem só á acção do fogo, estas penas materiaes não poderiam ser eternas, porque, se a alma é immortal e póde soffrer sempre, não succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos de carne, á feição dos nossos, são de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruição.

É um milagre a resurreição dos corpos; mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes, já usados pelos transitorios attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se embora que a alma é algoz de si mesma, que Deus a não persegue, mas que a desampara pelo estado desgraçado que ella escolheu: isso ainda póde rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente pareça pouco conforme á bondade do Creador; porém o que se diz da alma e das penas espirituaes não póde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as penas corporaes não basta que Deus retire a sua mão; pelo contrario, é forçoso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o que o corpo succumbiria.

Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em seguida á resurreição, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro, exhuma do sepulchro os corpos de argila que lá se haviam desfeito; tira-os taes quaes lá tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradações successivas da idade, da doença e do vicio, decrepitos, infesados, gotosos, cheios de precisões, sensiveis á ferroada d'uma abelha, cobertos das macerações que lhes fizeram o rossar da vida e da morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados, prestes a reverter ao pó d'onde surgiram, inflige uma propriedade que não tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou, se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Adão quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Adão era immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel, tornou-se mortal. Á dôr seguiu-se o morrer.

A resurreição, portanto, nem nos repõe nas condições physicas do homem innocente, nem nas condições physicas do homem culpado; é uma resurreição das nossas miserias sómente; mas com sobrecarga de novas miserias, infinitamente mais horriveis; é, até certo ponto, uma verdadeira creação, e mais maliciosa que imaginação alguma ainda concebeu. Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de duração infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas ás composições da materia desde a origem d'ella. Resuscita carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel nó elementos que tendem a separar-se, mantém e perpetúa, contra a ordem natural, aquella podridão vivente, que é posta no fogo, não para se depurar, mas para ser conservada qual é, sensivel, padecente, ardente e immortal.

Por amor d'este milagre é Deus arvorado em um dos algozes do inferno; por que, se os condemnados só a si podem imputar seus males espirituaes, tambem não tem a quem imputar os outros senão a Deus. Já não era pouco abandonal-os, depois de mortos, á tristeza, ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: irá Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo; chamal-os-ha por instantes á luz, não para allivial-os, mas sim para vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto os abandonará definitivamente. Mas não será isso ainda abandono, pois que céo, terra e inferno não subsistem senão por um acto permanente da divina vontade sempre activa. É força, então, que Deus os tenha sempre de sua mão, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a fim de que esses desgraçados immortaes contribuam, com a perennidade de seu supplicio, á edificação dos predestinados.

Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, máo grado nosso, nos veio á lembrança. Seja-me permittido recordarvo-lo.

III

Os martyres de Nero

Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se. Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas, arvores, flôres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos, tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.

Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis, testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os regulos da terra.