Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno encerra.

IV

O inferno espiritual

Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse tempo illimitado em que os segundos são seculos, e os seculos menos que segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto perpetuo o inferno, não ha dous modos de resolver aquellas perguntas. Uma breve reflexão vos dará a resposta que os theologos tem dado perfeitamente conforme a todas as tradições.

Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de assassinos, uma caverna de ladrões, um bordel immundo; soltai ao mesmo tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma optima pintura do inferno espiritual, isto é, o estado mental dos condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos, apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis, eternamente impios, eternamente sandeus.

Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes de que ávidamente estão sequiosos e privados. Os demonios, que os castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades, e insensatos desejos, dos quaes nada póde distrahil-os, nem sequer as dôres corporaes, e agudissimas de que são atormentados todos os seus membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem é executar as sentenças do soberano juiz—sentença promulgada no céo, pela qual são os reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seu Commentario aos psalmos: faz-se mister que tudo quanto deliciou os homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando castiga. O desejo saciado é, pois, punido com o desejo insaciavel.

Não imaginem que no inferno haja uma só alma que deplore a sua innocencia baptismal, e o céo promettido que ella perdeu, e a companhia dos anjos, e a bemaventurança dos eleitos. Os precitos fogem de Deus, não o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos tormentos que soffrem. De certo os angustia estar tão longe d'elle; mas é angustia de raiva que não tem nada que vêr com as saudades e anceios do amor.

Não pensem que entre as alegrias cuja perda lá nos dilacera o coração, estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos anciãos, as meiguices das creanças, a ternura dos irmãos, a dôce confiança dos amigos, as consolações do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias eram aquellas de certo para os peccadores; mas os condemnados nem as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e, pelo que toca ás affeições terrestres, mortas são todas: resta-lhes o odio sómente. A mãe que está no inferno, se tem um filho no paraizo, abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e é correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmãos e irmãs, amigos, tudo lhe é igualmente odioso.

O que os condemnados mais ardentemente desejam é coisa que se beba e se coma, e além d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal. São de tal sorte as suas disposições em meio de tantos soffrimentos que, se um só d'esses condemnados podesse por um momento voltar á vida, escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justiça da condemnação que os fere; mas é para amaldiçoal-a; e, bem que não sejam atheus, por que tal não podem ser em similhante lugar, são mais scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sêl-o uma nação de atheus. Uma nação de atheus, não sendo composta de immortaes, temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperança, e tiraria d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel e brutal; mas no inferno não ha que temer nem que esperar. Ha ahi um retouçar-se na dôr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem os satisfazer. Ahi é tudo obscenidade, egoismo, opprobrio, hediondez, a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima, sem piedade, sem consciencia.

A blasphemia é a unica distincção que separa os condemnados das feras assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos, dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. É logo a blasphemia o unico symptoma de razão que se lhes deixa, a sua unica e ultima grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia é um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis os santos n'este abysmo, o condemnado que não blasphemasse seria um bruto infecto.