Que afflicção para acrescentar ás angustias d'aquella familia! Se elles tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras não fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se á memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o retrato! Choral-o, suspirar por ir vêl-o! De repente, morrer para odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida; é duvida que gela a oração no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um homem—coisa tão natural ao mundano egoismo—; ou então, o outro egoismo feroz e sombrio do frade que immola á sua propria salvação todos os affectos humanos.
II
Ceo
Haverá no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haverá orphãos eternos, e viuvas eternas, e mães eternamente sem filhos. Se isto é motivo para amarguras, ahi está o agro das doçuras do ceo; mas, se é motivo para alegrias, que horriveis alegrias!
O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos. Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo.
CAPITULO OITAVO
HISTORIA DE UM SONHO
I
Ganhou um medico, á cabeceira de um pobre, doença mortal. Chegou tão depressa a morte que não lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o padre, quando elle era já morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes, disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.
As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se quedou a pensar n'aquillo todo dia.