II

E eu velava á sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando, soluçando, e sempre preoccupada, a pezar seu, com as palavras do padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: «Não se salvará elle?»—Não duvide, senhora—dizia-lhe eu; porém tristemente eu via que as minhas respostas a não socegavam.

Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera não comesse nem dormisse, fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforçou por engulir. Então pediu um livro de orações. Abriu ao acaso um que lhe deram, esperando achar ali algum alivio, que não achou; pelo contrario, com a leitura cresceu-lhe a inquietação. Vi-lhe então no rosto uns tregeitos involuntarios, e um crispar de mãos, e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braços de quem a levou d'ali.

III

Apanhei o livro cahido de suas mãos. Denominava-se Quotidiano do christão, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido: eram os Pensamentos christãos para todos os dias do mez, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado quando lia no quinto dia uma meditação ácerca do Juizo final. Acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: «Quão terrivel é o dia da ira do Senhor! Os justos escassamente serão havidos como taes: que será dos peccadores? Que sentença póde esperar o peccador impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentença! Ide, malditos, arder em fogo eterno! Ai! onde irão, Senhor, esses desgraçados que amaldiçoaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem, distanciando-se de vós? Onde é que está paragem tão funesta?

«SEXTO DIA

«O INFERNO

«I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados, chorando-se, detestando-os; mas É TARDE. O chorar não lhes faz senão augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os. Penitencia dos condemnados! quanto és rigorosa, e inutil!

«II. Não vêr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso é apenas sombra; soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi, sem allivio, sem repouso; sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o coração raivoso e desesperado, que vida!

«III. Esses desgraçados enfuriam-se por terem desprezado tantas occasiões de salvarem-se. O recordarem os prazeres passados é-lhes um de seus mais penosos tormentos; mas o tormento superior a todos é a lembrança de terem, por sua culpa, perdido Deus.»[6]