A conclusão que eu desejaria tirar do que fica dito é que a Biblia e a Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas, não tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se a Escriptura lh'o não annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno, apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse á Egreja attribuir áquelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente conforme á justiça e bondade de Deus.

Tanto em Genebra como em Roma crê-se no inferno; mas por diversas razões; e o que parece argumento decisivo para metade dos christãos, não têm a mesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.

CAPITULO SEGUNDO

Resposta a uma objecção

Fallei da multidão dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa. É certo que a maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este assumpto em livros modernamente escriptos, crêem que não, e vos dizem que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinião aos seus adversarios para os tornar odiosos. Não duvidam que ha inferno; não os inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados. Mil, cem mil, um milhão d'almas a padecerem eternamente parece-lhes coisa muito de crêr-se, moralissima, certissima. Não póde suppôr-se que o inferno esteja vasio; aliás melhor seria supprimil-o. Um milhão ou alguns milhões d'almas, se Deus as abandona, tambem ellas abandonam a Deus; é bastante para exemplo, é bastante para justiça; porém metade do genero humano e mais de metade, é excesso, é monstruoso: não se crê. Não é isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem. Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as verdades christãs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou formando um corpo doutrinal, que um homem instruido não póde hoje, sem risco de heresia, tentar separal-as.

Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de que o clero não dá tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do padre Annat, do padre Lémoine, e d'outros casuistas, tão agramente invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada vez mais a acção n'outro tempo tão vigorosa dos elementos hebraicos do christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem á luz; o coração reclama, bem que timidamente, seus direitos; a consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradições, não repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar. Verdade é que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas relativas á vida futura, e—notabilissimo caso!—não insistem nas consequencias praticas, no tocante á vida presente. Este ultimo facto, muito significativo, provém dos casuistas. Foram elles quem primeiro quiz achanar aos homens a estrada do céo. Como não soubessem conciliar as necessidades da vida terrestre com as da fé, e não ousassem embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram audazmente a moral. Graças lhes sejam dadas, que isto de peccados mortaes está por um fio! O assassino, mal lavou as mãos, e o perjuro mal lavou a lingua, são admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a fuzilar trovoadas minacissimas; é ainda Isaias e S. Paulo a bradarem; mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa é o tolerante padre Lémoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma capitalista, uma burgueza opulenta não podem viver de favas, nem trajar de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a perfeição negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas nos pulpitos. Descobrir, porém, no complexo dos actos dos homens, o limite exacto do dever, isso é desvario: ou prohibir, ou permittir tudo quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros nús, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das esmolas, a lisonja, a ambição, a cupidez, a ingratidão, as desavenças, tudo passa, tudo é venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padre póde ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o céo promettido ao ladrão que se accusa, o perdão da adultera, e involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias, facilitando a expiação. Pois os primitivos christãos não tinham ouvido fallar do bom ladrão, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor? Comparem com a disciplina de hoje a de então que eu já referi. Se o padre Lémoine lesse nas catacumbas um capitulo da Devoção commoda, o congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco de Salles o tractasse bem. É que os primitivos christãos nunca perdiam d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu procedimento, não a tal artigo de fé ageitada a dar alentos á esperança, mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam.

A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as crenças da Egreja, está por tanto desde muito desacorde. Port-Royal tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os casuistas venceram. A contenda acabou.

Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos á outra vida, dos esforços que debalde se envidam para lhes amaciar as asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes não atirem fóra copo e remedio.

Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam encarar impassiveis a multidão de pagãos e hereges que regorgita do inferno—multidão que sem intercadencia augmenta com muitos milhares d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as vinganças divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador á maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e arrasta a fé; e não só a piedade, mas tambem a justiça.

S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente á piedade, estacou diante d'esse problema de justiça, e diligenciou, a seu modo, resolvêl-o, por feição que podesse, sem offensa da fé, contemporisar com a sua razão.