Imaginou um justo fóra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade, dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S. Thomaz, tão grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justiça, lá estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os gentios.
Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. Já não ha recorrer a milagre. Dizem que, se entre infieis, e até entre os hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as vê: essas pertencem á Egreja, não corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as verdades que ignoram, e basta isso: são catholicos lá do seu feitio. É pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes, virtuosos transviados, erros invenciveis[[7]]. Já se diz que ninguem é condemnado, tirante os máos, qualquer que seja a religião que professem.
Bella é a linguagem, mas tambem é evidentemente illusoria; por onde vamos vêr que tal piedade, bem que sincera, não póde aproveitar a alguem. Vós não condemnais todos os gentios nem todos os hereges; é verdade. Os dogmas que nos ensinais é que os condemnam. Ora, se, acaso, os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que não estava em vossa alçada condemnar, ainda que o quizesseis, um só idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas são verdadeiros, tambem sabemos que não cabe em vossa alçada salvar um só gentio nem um só herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de taes dogmas, é de fé que o homem nasce máo, e que o crime que lhe mancha o berço, explica, mas não lhe justifica os erros da vida. Irroga-se culpa a quem se liga á religião de sua familia e patria, quando tal religião não é a genuina. Se assim não fosse, vêde bem que melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco salvar-se-hia procurando de boa fé, como os patriarchas, prazeres que a nós nos perdem para sempre; e o maximo das bençãos seria nascer e morrer selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clarões que nos privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billiões d'ellas que morrem em peccado original, uma duzia só que fosse, seria que farte para argumentar que ha salvação fóra da Egreja, e sem algum dos soccorros extraordinarios de que ella dispõe. Estes theologos tolerantes não reparam que inutilisam a revelação, que despojam a Egreja das chaves do céo, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para lá entrar, e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem uma chave. A opinião assim pelo claro não ousariam elles exhibil-a, e, a bem dizer, tudo aquillo não é opinião sua; é, melhor ainda, expansão de alma que aspira á verdade e justiça; é protesto da humanidade christã contra o judaismo, protesto mais revelante por não ser voluntario, nem saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio não é o essencial do protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que não é parte em taes discursos, pois que os discursadores não concluem como deviam, se raciocinam; e não podem fundamentar a sua argumentação sobre ensino authentico da egreja[8]. É mister, por desgraça, renunciar á orthodoxia ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O justo, estranho á Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mão, não existe aos olhos da fé: é um phantasma que avulta á vossa piedade. Se ha ignorancia involuntaria e invencivel, não é a do idiota? Ora ahi está! o idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre materno, peccaram mortalmente, e só pelo baptismo conseguirão justificar-se. Como é então que ha de subtrahir-se ás tentações e ás sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem revelação e sacramentos? Onde ganhará elle amor ao bem e vigor para pratical-o? Tal hypothese é heresia por atacado; só poderemos aceital-a como excepção milagrosa; e, n'essa qualidade, não vingaria dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde, ha seis mil annos, se vão acamando as gerações humanas.
[[7]] Veja entre outras obras os Estudos a respeito do Christianismo por Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor apologia da fé catholica.
[8] Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado original; necessidade do baptismo; ha uma só fé e um só baptismo; fóra da egreja não ha salvação; necessidade dos sacramentos da penitencia, de confirmação, etc., como auxiliares de nossas enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente insufficiencia da prégação e da leitura; inefficacia das boas obras sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de viver e morrer em estado de graça fóra da Egreja que é a dispenseira das graças, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados áquelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.
CAPITULO TERCEIRO
DA DESCIDA DE CHRISTO AOS INFERNOS
Descendit ad Inferos; tertià die resurrexit à mortuis; ascendit ad c[oe]los, sedet ad dexteram Patris, indè venturus est judicare vivos et mortuos.
Credo in Spiritum sanctum, in sanctam Ecclesiam catholicam et apostolicam, in communionem sanctorum, in remissionem peccatorum, carnis ressurrectionem et vitam æternam. Amen.
(Symb. apostolorum).
I
O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos infernos. Não é o Evangelho que o refere; é um documento não menos venerado, o qual, com o Pater e Ave, é parte das orações que a Egreja ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior á redacção dos Evangelhos e resumo da fé apostolica: é o Credo.[9]