Não discutamos, pois, a minha vida, que eu não tenho que entender com a vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro prestigio, e não me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com razões tão claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuações calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que todos sois pessoas virtuosas que vão direitas ao paraizo, e que eu sou máo, e o peor dos homens, sêde francos, seria isso prova de que eu argumento mal, e vós argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto é que é preciso responder, senhores. Eu por mim digo que a dôr, n'este e no outro mundo, é meio de expiação; digo que a dôr, n'este e no outro mundo, acarêa a piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdão é o fim, a corôa, a perfeição e explendor das obras da justiça; que um castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, sem moralidade, inutil ao culpado, ás testemunhas e ao juiz;—um acto de colera, de odio e furor—um feito sombrio e sinistro como transportes de demencia incuravel. Digo que tal crença é mal cimentada, e assim funesta em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo são eternos; que eterno é só o bem, a omnipotencia, a bondade, a justiça e misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, são inseparaveis em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra hão de passar; que a fé ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperança, e que tudo ha de acabar, salvante a Caridade.

Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.

IV

Mas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar; e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a bôcca; mas não com a consciencia.

V

Espero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto, dil-as-hão baixinho. Este livro irá ao Index, e tal, que o não tiver lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros, como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde; vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura. Divulgar-se-ha que este livro é tição do inferno, que queima os dedos que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.

A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme? Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella como nos discursos d'um sabio.

As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só, cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regras das acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas, condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.

A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este:

VI