A sair breve:

Versos de Amor.

A TENTAÇÃO DO MAR

Ponho-me ás vezes a escutar, atento,
A voz do sangue, a voz da minha raça...
E em meus olhos, então, saudosos, passa
Uma visão que é um deslumbramento!

Em horas de amargura e de anciedade,
Quando os meus braços tombam de fadiga,
—Ponho-me a ouvir aquela voz antiga
Religiosamente, com saudade...

É quando a noite cai silenciosa
E uma tristeza oculta chora em nós,
Que eu oiço aquela voz misteriosa
E me esqueço a falar com meus avós!

É quando alguem me diz que tudo é morto,
Que a Patria é morta e destruido o lar...
Quando vagueio palido e absorto,
Com amargura, e sem acreditar!

É quando eu vejo a terra abandonada,
O Passado esquecido... E escuto, além,
Na escuridão da noite envergonhada,
Insultarem a Patria, a propria Mãe...

Quando oiço o Mar ao longe, embravecido,
Bolsando ao ar os negros vagalhões,
No silencio profundo e estarrecido,
A cantar as estrofes de Camões...

É quando, á luz amiga das estrelas,
O Mar saudoso e bom, o Mar profundo,
Julga, a sonhar, que embala caravelas
Que vam partir a devassar o Mundo!