Ficam-se os olhos humidos, inquietos
A interrogar em vão a noite escura...
E eu sinto em mim a tragica amargura
Dos destinos falhados, incompletos...

Mas, numa aurora esplendida e bemdita
É então, é então que em mim desperta
E no meu sangue novo ressuscita
O espirito da raça numa alérta!

E no meu sangue, em turbilhões, a ardêr,
Em orgulho e em fé e esforço altivo,
Todas as glorias do Passado vivo,
Todo o passado canta no meu sêr!...

... Sam primeiro os indómitos pastores,
Rudes, selvagens, livres, vagabundos,
Gigantescos, erguidos nos pendores
Das altas serras sob os ceus profundos!...

Vejo-os além de mim, longe, na bruma,
Pelas encostas barbaras da serra...
E olham receiosos a nevada espuma
Dos abraços do Mar cingindo a Terra...

Vejo-os cavando o solo... E o trigo cresce...
—Olha as searas de oiro, os fructos loiros!...
As enxadas ao Sol,—olhai,—parece
Que scintilam no ar como tesoiros...

Vejo-os porfim á beira-Mar, um dia,
Ouvindo as ondas cérulas cantar...
E já os tenta uma visão que erguia
Aos olhos deles a canção do Mar...

Vam-se á floresta... Brilham os machados...
E os troncos descem, mortos, sobre os rios...
Ei-los, na foz que se erguem, espantados,
Ei-los no ar, sam mastros de navios...

Depois,—ó dia grande!—eu vejo o Povo
da minha Terra á beira-mar chorando...
É o doirado romper dum tempo novo!
Sam as velas, ao longe, navegando!...

Pelo mar-fóra vão, pela aventura,
Levam sómente a graça do Senhor!
De azas abertas, pela noite escura,
Nem as detém o proprio Adamastor...