Vêde os mareantes, vêde os vagabundos,
Percorrendo as longinquas solidões...
Dam ao mundo espantado novos mundos!..
Dam ao Futuro os versos de Camões!

Abrem a Edade-nova! E o mundo inteiro
Viu-se maior, mais rico ao despertar,
Pelo esforço do Povo-marinheiro
Que atravessára e dominára o Mar...

Grita em meu sangue a fúlgida epopeia,
Céga-me a luz a arder de tantos sois,
Sóbe do Mar da Gloria a maré cheia,
O Sol aureóla as frontes dos herois!

E entam em mim renasce o velho culto,
O antigo amor, a vida vencedora...
E em meus olhos ardentes passa o vulto
Duma Patria a sorrir como uma aurora.

Pulsa irrequieto, a arder, meu sangue novo.
Rasga-se ao meu olhar um alto fim!...
E toda a alma heroica deste povo
Sinto-a sonhar e delirar em mim...

Ah! como é bela a Vida anciosa, inquieta,
Ah! como é grande e belo navegar!
—Sou marinheiro porque sou Poeta,
—Vinde comigo, vamos para o Mar!

Ah! como é bela a ancia desmedida
Que nos dilata o peito, a estremecer,
E nos exalta e nos dilata a vida,
E nos levanta e diviniza o ser!

Ó meus avós—herois da Descobérta,
Quero ir convosco pelos mares fóra...
É a vossa alma que hoje em mim desperta
É o vosso coração que eu sinto agora!

Vamos todos p'ra o Mar!... Se acaso o Mundo
Estreito fôr p'ra tanta anciedade,
Vamos ás Indias que ha no céu profundo,
Vamos cruzar, correr a Imensidade!...

Numa divina ancia erguei os braços,
Livre já das algemas, para o Céu!
—Ha muitos soes brilhando nos espaços,—
Vamos roubá-los como Prometeu!...