PONCIO olhou novamente para Judas, e com enfadada condescendencia:

Vá.
Pode falar, mas bréve.

JUDAS avança até á presença de Poncio. Saúdou-o, e muito senhor de si, firme, resoluto, assim começa:

Eu nasci em Judá.
Odeio a Galiléa, e, sempre respeitoso,Me curvei de Tibério ao vulto majestoso.
—Engana-te, senhor, aquelle que disser
Que o profeta de quem falou Hanan requer,
Como acabei de ouvir, as attenções do povo
Para o império de Roma.

PONCIO estremeceu, carregou o semblante:

O quê?

JUDAS com sinceridade hypocrita:

Não me demôvo
De dizer a verdade, inda que soffra o peso
Do remorso, indicando um amigo indefeso
Á justiça de Roma e do Conselho! Brado
Em voz altisonante: Ó Poncio, és enganado!
O Profeta conspira, em intimo rancor,
Contra a lei de Moysés e contra o vencedor!
—De tal conspiração confio-te o segredo...

Approximou-se mais de Poncio, que continúa assentado, e fala-lhe agora, insinuante, incisivo, um pouco por detraz d'elle, encostando-se até á curva da cadeira. Poncio escuta-o em silencio, com o olhar brilhante e fixo em um ponto, todo o seu sentido concentrado nas palavras que sáem dos labios de Judas como subtil veneno.

Porque abate no mar, ás vezes, um rochedo
Austero, alcantilado, enorme?—Toda a gente
Julgava-o rijo, forte, invencivel, potente,
Que do seu dormitar ninguem o accordaria,
Que o Tempo, esse feroz destruidor, seria
Incapaz de roer-lhe o corpo giganteu...
Mas certa noite o monstro herculeo estremeceu,
Barafustou no espaço, e com fragor medonho
Afundou-se no abismo, ao despertar d'um sonho!
—Que forças colossaes, que forças imprevistas
O venceram? O sol ia doirar-lhe as cristas
Majestosas, assim que despontava ao largo;
A Lua namorada, em languido lethargo,
Cobria-lhe de prata o dorso negro e frio,Que as lagrimas do ceu tornavam tão macío
Como um peito de cisne ou face de mulher...
O proprio Creador do Mundo nem siquer
Lhe causava receio. Em doidas convulsões,
Um raio desabou das vastas amplidões
Sobre elle, e a sua voz, longe de ser magoada,
Soltou-se em desdenhosa e grande gargalhada!
—Que forças colossaes, que forças imprevistas,
Lhe fizeram baixar as invenciveis cristas?
Que forças?—Perguntae-o áquella massa informe,
Que por vezes murmúra e que por outras dorme
Em profundo silencio; interrogae o Mar,
Que outr'ora vinha, meigo e humilde, a caminhar
Do horisonte sem fim, da solidão distante,
Para oscular os pés do impávido gigante!
Interrogae o vil hipocrita, que ao passo
Que era meigo e humilde, em fraternal abraço,
Tratava de roer, silenciosamente,
As bases do colosso athletico e indiff'rente,
Que afinal, certa noite, ao despertar d'um sonho,
No abismo tombou com fragor tão medonho,
Que as Estrellas, ouvindo aquelle enorme grito,
Sentiram-se tremer d'horror no Infinito!