PONCIO ergue-se de chofre, com o olhar incendido, trémulo, os braços alevantados. E o seu vulto branco, destacando-se no fundo escuro da vasta quadra, dir-se-ía o d'um espectro de destruição.
Ha colossos que teem gigantes nas entranhas,
Féros como leões, grandes como as montanhas!
Possuem dos clarins as frases inspiradas,
E fusilam do olhar relampagos d'espadas!
Ó mares da perfidia, andaes a carcomer
As bases do colosso herculeo do poder?
Tende cuidado, anões, co'os ríjidos ciclópes!
Ondas que assim correis, que vindes em galopes,
Apressadas, servís, infames... Para traz!
Que para reprimir a vossa furia audaz,
Para que o vosso dente ao monstro não carcoma,
Basta um simples olhar dos hercules de Roma!
E passeiando agitado, raciocinando e resolvendo de prompto:
Prefiro debelar de prompto a crise. Ignoro
Se falaste verdade, ou se acaso labóro
Em uma vil intriga! A dúvida me envolve...
Mas n'esta situação o meu poder resolve
O que julga efficaz. Esse traidor proféta
Ha de attingir ainda hoje a tenebrosa méta
Da existencia. Vou dar a ordem da prisão
Do Zéfiro subtil com furias d'Aquilão!
HANAN detendo-o, supplicante, receioso:
Sê prudente, senhor. O sangue d'innocentes
Não deverá correr. Escuta os meus prudentes
Conselhos, bom amigo. Ai! poupa-me a Judéa!...
Escuta-me, por Deus! e a indignação refreia!
Tenho medo do povo... elle é tão leviano!...
Será muito melhor seguir o nosso plano.
PONCIO sem querer ouvil-o:
Que poderá falhar!