CLAUDIA com uma risada:
Não faças poesia, que Virgilio
Mandou lançar a sua Eneida ao fogo!
Começas muito mal. Por um idilio!...
Do teu poema a sorte pões em jogo...
MARIA docemente:
Na ironia cruel quanta amargura!
Esta hora é suprema.
Vou falar-te d'um ser todo candura...
CLAUDIA zombeteira, petulante:
O heroe do teu poema?
MARIA animando-se pouco a pouco:
Heroe, disseste bem, mas que regeita
O gladio vingador,
E que tem na palavra uma arma affeita
Á bondade, ao amor...
Ouvindo-lhe o falar tão meigo e doce
Que de manso deslisa,
Perfumado, subtil, como se fosse
O perpassar da brisa,
As almas estremecem, de sentidas,
E ficam-se amorosas, Desabrochando trémulas, florídas,
Como botões de rosas!
Ha já trez dias, Claudia, que o terror
É para mim veneno!
Querem matal-o! Ai! salva o meu amor!
Ai! salva o Nazareno!
Não deixes que lhe roubem a existencia,
E termina o martirio
D'esta paixão que tem do Sol a ardencia,
E a pureza d'um lirio!
Ordena que o não matem, Claudia! acalma
Os monstros malfasejos,
Que eu a teus pés arrojarei minh'alma
N'um effluvio de beijos!
E cáe de joelhos em frente d'ella, com a fronte erguida, o olhar febril, os braços estendidos, supplicante.